Nas eleições de 2024, no município de Sobral o Comando Vermelho tentou manipular a escolha política dos eleitores por meio de coação e ameaça. Em 2026, a facção voltou a praticar o mesmo crime, inclusive, eventos públicos foram cancelados após ameaça
Vereadores presos Carlos do Calisto (PSB), Junim do Povo (Podemos) e ?Mario Vicktor (União)
Da Redação do Jornal de Fato
Nas eleições de 2024, no município de Sobral, interior do Ceará, uma facção criminosa tentou manipular a escolha política dos eleitores por meio de coação e ameaça. Em 2026, a facção voltou a praticar o mesmo crime, inclusive, eventos públicos foram cancelados após ameaças de morte e de atentados contra estabelecimentos de pessoas envolvidas na organização desses eventos.
Além disso, o Comando Vermelho, facção acusada, cobrava um 'pedágio’ para que os candidatos pudessem ter acesso a alguns bairros da cidade. Os indícios apontam que o 'pedágio' cobrado era de R$ 30 mil para candidatos que não tinham mandato e de R$ 60 mil para candidatos que já tinham mandato.
Essas informações constam no inquérito da Operação Omertá, deflagrada na terça-feira, 11, para aprofundar a investigação contra a ação da facção criminosa para influenciar as eleições municipais de Sobral. São investigados tanto faccionados quanto agentes políticos que teriam se beneficiado do esquema.
A operação prendeu três vereadores: Carlos do Calisto (PSB), Junim do Povo (Podemos) e ?Mario Vicktor (União). Eles também foram afastados dos cargos por um prazo inicial de 180 dias. Os vereadores são suspeitos de ter pago o “pedágio” cobrado pelos criminosos, motivo pelo qual teriam passado a fazer parte do esquema que tinha objetivo de manipular a escolha política dos eleitores dos bairros controlados pela facção, conforme as investigações.
Ao todo, a operação conseguiu na Justiça 14 mandados de prisão preventiva, dos quais 7 foram cumpridos em Sobral. Os outros sete mandados foram emitidos contra pessoas consideradas foragidas, supostamente escondidas no Rio de Janeiro. A identidade de outros presos não foi divulgada. Um deles é um chefe da facção que já estava preso - marido da policial militar investigada.
De acordo com os investigadores, o inquérito foi aberto em 2024 e coletou depoimentos e evidências da influência da facção nas eleições municipais daquele ano. Já em 2026, houve o cancelamento de eventos e reuniões de políticos por ordem da facção.
A Operação Omertá foi realizada pela Força Integrada de Combate ao Crime Organizado no Ceará (FICCO/CE) e pelo Ministério Público Eleitoral - por meio da 3ª Promotoria Eleitoral e do Grupo Auxiliar Eleitoral (GAEL).
Comando Vermelho e PCC tentam influenciar processo eleitoral
O avanço de facções criminosas e milícias na política institucional representa uma ameaça grave à democracia brasileira. Grupos como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) tentam influenciar o processo eleitoral por meio do financiamento ilícito de campanhas, coação de eleitores em territórios dominados e lançamento de candidatos próprios.
O Cenário da Infiltração
- Candidatos ligados ao crime: Levantamentos recentes apontam dezenas de candidaturas em diferentes pleitos associadas a organizações criminosas, com atuação distribuída por variadas correntes partidárias.
- Controle territorial: Em regiões dominadas pelo crime, criminosos chegam a cobrar taxas abusivas ("pedágios") de candidatos para permitir a realização de campanha ou impõem restrições de circulação a rivais.
- Coação de eleitores: A população de áreas periféricas ou controladas sofre pressões diretas para votar em nomes endossados pelas facções, limitando a liberdade de escolha no dia da votação.
Ações de Combate e Desafios
- Justiça Eleitoral e TSE: O Tribunal Superior Eleitoral busca estabelecer critérios mais claros e céleres para barrar candidaturas de pessoas com elos comprovados com o crime organizado, embora esbarre em complexidades processuais de análise de provas.
- Pressão do Ministério Público: O Ministério Público Eleitoral tem cobrado dos partidos políticos a adoção de filtros rigorosos de filiação para evitar o endosso de nomes comprometidos com atividades ilícitas.
- Monitoramento policial: A Polícia Federal mantém operações contínuas de inteligência para mapear e reprimir a interferência de facções e milícias nas disputas municipais e gerais.
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