Terça-Feira, 09 de June de 2026

Postado às 09h30 | 09 Jun 2026 | redação Gravações de integrante do 'novo cangaço' revelam sobre venda de drogas em Mossoró

Mossoró foi citada por um acusado de tráfico de drogas interestadual em uma reportagem do Fantástico, da TV Globo. Trata-se de José Alexandrino Júnior Lira, integrante do "Novo Cangaço", que revela sobre a suposta participação de policial civil

Crédito da foto: Reprodução Trecho da conversa divulgada pelo Fantástico neste domingo, onde Mossoró é citada

Por Fábio Vale / Jornal de Fato

A segunda maior cidade do Rio Grande do Norte foi citada por um acusado de tráfico de drogas interestadual em uma reportagem do Fantástico, exibida na TV Globo neste domingo (7). A matéria tratava da participação de policiais civis supostamente envolvidos com venda de entorpecentes, proteção a foragidos e relações com facções criminosas.

Um dos trechos da reportagem de pouco mais de oito minutos traz uma fala de José Alexandrino Júnior Lira, conhecido como "Júnior Lira" e investigado por participação em ataques do chamado "Novo Cangaço" contra bancos e carros-fortes no Nordeste.

Ele é citado como um dos beneficiados pela suposta atuação de policiais investigados por negociar com ao menos quatro criminosos e proteger foragidos ao avisá-los de operações com antecedência. Segundo a reportagem, em uma gravação, Lira afirma que contava com o apoio de um policial para vender entorpecentes.

Ainda de acordo com a matéria, em outra conversa, relata que recebeu oferta de ajuda para expandir as vendas até Mossoró (RN). "Eu digo: 'eu me garanto vender aqui em Mossoró-RN, vender tudo'. Aí, ele (detetive) disse: olha, eu lhe ajudo a vender". Na semana passada, uma operação policial na Paraíba levou à prisão de um delegado e dois investigadores da Polícia Civil do estado. A reportagem pontuou ainda que as defesas negam irregularidades.

 

A reportagem

A reportagem do Fantástico revela que uma investigação da Polícia Civil e do Ministério Público da Paraíba aponta que policiais civis presos na semana passada atuavam em diferentes frentes para beneficiar integrantes do crime organizado. Segundo a apuração, eles não apenas negociavam drogas com traficantes, como também desviavam entorpecentes apreendidos pela polícia e repassavam informações que ajudavam criminosos a escapar da Justiça.

As suspeitas recaem sobre um grupo formado por policiais e traficantes que, de acordo com os investigadores, mantinha uma relação próxima e duradoura. A operação resultou na prisão dos investigadores Everton Aires, conhecido como "Bomba", Eduardo Jorge, o "Mão Branca", do delegado Brás Morrone e de outros suspeitos.

Segundo a investigação, o esquema utilizava drogas apreendidas pela própria polícia como fonte de abastecimento para o tráfico.

Áudios obtidos durante as apurações indicam que os investigados retiravam entorpecentes que estavam sob custódia da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), em João Pessoa, para revendê-los a criminosos.

De acordo com os investigadores, as negociações envolviam cocaína, crack e skank. Em uma das conversas interceptadas, os suspeitos discutem a disponibilidade de drogas armazenadas na delegacia e a necessidade de comercializar rapidamente o material.

 

Drogas para qualquer facção

As apurações apontam que os policiais negociavam com diferentes grupos criminosos.

Segundo os investigadores, havia situações em que drogas retiradas de uma facção eram revendidas para integrantes da mesma organização. Em outros casos, o material era comercializado para grupos rivais.

Em um dos áudios analisados, um dos suspeitos afirma ter encontrado uma ligação com integrantes do Comando Vermelho e comenta que o grupo estaria disposto a comprar toda a droga disponível.

Para a polícia, as conversas mostram que os investigados tratavam os entorpecentes como mercadoria e mantinham relações comerciais com qualquer criminoso interessado em adquiri-los.

Informações privilegiadas

Mas o apoio aos criminosos não se limitava ao fornecimento de drogas.

A investigação aponta que os policiais também vazavam informações sobre operações e utilizavam conhecimentos adquiridos na carreira para ajudar integrantes do crime organizado a evitar prisões.

Segundo os investigadores, criminosos recebiam alertas antecipados sobre ações policiais e orientações que dificultavam o trabalho das forças de segurança.

A apuração identificou ainda uma relação próxima entre os investigados e traficantes. De acordo com a polícia, os encontros aconteciam presencialmente e eram registrados em fotografias e vídeos publicados nas redes sociais.

Ligação com suspeito do Novo Cangaço

Entre os criminosos que mantinham contato com o grupo está José Alexandrino Júnior Lira, conhecido como Júnior Lira. Segundo a Polícia Civil, ele é investigado há anos por envolvimento em ataques a bancos e carros-fortes e seria integrante do chamado Novo Cangaço.

A polícia afirma que Júnior Lira também atuava no tráfico de drogas e mantinha contato frequente com os investigados.

Para os responsáveis pela operação, o caso revela um dos cenários mais preocupantes para a segurança pública: quando agentes encarregados de combater o crime passam a atuar em benefício de organizações criminosas.

"O fato de serem agentes do Estado dá àquelas pessoas uma sensação de blindagem. É algo muito grave e que precisa ser combatido com toda a força", afirmou um dos investigadores responsáveis pelo caso.

Defesas negam acusações

As defesas negam irregularidades.

O advogado de Bomba afirmou que o devido processo legal se instaurou e que o policial não aceita as acusações.

O advogado de Mão Branca disse que não é crível que policiais possam estar negociando drogas abertamente e que podemos estar diante de um processo de assassinato de reputação.

O advogado de Braz sustenta que não há nada que exponha a participação consciente do delegado nos fatos investigados.

Júnior Lira, suspeito de integrar o Novo Cangaço, também foi preso. Sua defesa disse que a "inocência será demonstrada" e que ele é "alvo de uma perseguição policial".

 

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