Nove meses após a Polícia Federal deflagrar a Operação Mederi, a empresa DisMed que está no centro das investigações, recebeu autorização para voltar a disputar licitações e contratar com o poder público, exceto Mossoró e prefeituras investigadas
Dinheiro vivo foi encontrado em caixas de isopor
Da Redação do Jornal de Fato
Nove meses após a Polícia Federal deflagrar a Operação Mederi, a empresa DisMed - Distribuidora de Medicamentos, que está no centro das investigações, recebeu autorização da Justiça Federal para voltar a disputar licitações e contratar com o poder público, exceto em Mossoró e outros cinco municípios da região alcançados pela operação.
A Mederi foi deflagrada no dia 27 de janeiro de 2026 para desmantelar um esquema de desvio de recursos da saúde pública de Mossoró e de outros municípios, por meio de contratos fraudulentos firmados por prefeituras com empresas como a DisMed. A Polícia Federal cumpriu mandado de busca e apreensão na residência do então prefeito de Mossoró e agora candidato a governador Allyson Bezerra (União Brasil). Ele é apontado, segundo a PF, no “topo” do esquema criminoso.
A liberação para a DisMed voltar a contratar com o poder público foi noticiada em primeira mão pelo jornalista Dinarte Assunção, diretor do Blog do Dina. A defesa pedia desde junho, mas a decisão só saiu agora em outubro.
Na petição daquele mês, a defesa chamou a suspensão de desproporcional: segundo ela, a medida impedia a DisMed de contratar com “mais de 94%” dos seus potenciais clientes públicos. Em setembro, voltou ao tema com um relatório de auditoria externa e o argumento de que, sem contratos, a empresa ficaria sem faturamento para responder a uma eventual condenação.
“O resultado não era o esperado. Até aqui, o tribunal vinha mantendo fechada a porta do setor público: ao liberar ex-sócios para trabalhar na iniciativa privada, o relator conservou a proibição de contratos, ajustes ou vínculos de qualquer natureza com entes da Administração Pública direta ou indireta, em qualquer esfera”, noticiou o jornalista.
A autorização chega depois de meses em que a DisMed não deixou de vender ao poder público. Como o Blog do Dina mostrou numa reportagem publicada em setembro, 46 municípios do Rio Grande do Norte empenharam R$ 1,8 milhão para a empresa depois da operação. O laudo anexado pela própria defesa lista nove atas e contratos novos com órgãos públicos, todos datados depois das buscas.
“Nos seis municípios investigados, a base do TCE não registrava nenhuma venda depois da operação. É essa a fronteira que a decisão agora torna oficial”, destaca a reportagem.

Allyson é apontado pela Polícia Federal no “topo” do esquema
O candidato a governador Allyson Bezerra foi descrito pela Polícia Federal como principal suspeito do esquema de desvio de recursos da saúde pública de Mossoró, descoberto pela Operação Mederi. Então prefeito da segunda maior cidade do Rio Grande do Norte, onde a estrutura fraudulenta ganhou força, ele é apontado como “topo” do esquema, e segue sob investigação da PF.
Na manhã do dia 27 de janeiro de 2026, agentes da PF e a CGU cumpriram 35 mandados de busca e apreensão no estado. Foram apreendidos R$ 219 mil em dinheiro vivo, divididos em 7 locais de busca; 20 celulares; 17 outras mídias (pen drive, computador); e 2 veículos.
Allyson Bezerra teve celular, notebook e HDs apreendidos na operação. A Polícia Federal solicitou as senhas dos aparelhos eletrônicos, mas o ex-prefeito negou.
As investigações apontam indícios de irregularidades em contratos de fornecimento de insumos para a rede pública de saúde, envolvendo empresas sediadas no Rio Grande do Norte que atuavam junto a administrações municipais de diversos estados. Auditorias identificaram falhas na execução contratual, incluindo indícios de não entrega de materiais, fornecimento inadequado e sobrepreço.”
A operação foi autorizada pelo desembargador Rogério Fialho, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), com sede em Recife (PE). Ele determinou medidas cautelares diversas contra os empresários, inclusive pagamento de fiança e implementação de tornozeleira eletrônica relativos a sócios e funcionários das empresas investigadas.
Todos os envolvidos, até aqui, não foram indiciados ou condenados. Eles, por meio dos advogados de defesa, afirmam que são inocentes.
“Matemática de Mossoró” e pagamento de propina
As investigações da Polícia Federal revelaram um esquema de corrupção denominado pelos próprios investigados como a “Matemática de Mossoró”. A acusação mais severa advém de diálogos interceptados entre os empresários da DisMed Distribuidora de Medicamentos, que descrevem explicitamente a divisão dos valores desviados.
Nas conversas interceptados e que recentemente tiveram vídeos divulgados, o sócio Oseas Monthalggan afirma taxativamente que, dos lucros obtidos, “quinze por cento (15%)” seriam destinados a “ALLISSON”, numa referência ao ex-prefeito e atual candidato a governador do Rio Grande do Norte, Allyson Bezerra.
O documento judicial detalha que, num dos áudios transcritos, os investigados explicam que de um montante de lucro apurado de cento e trinta mil reais, a empresa teria de pagar “cem mil” reais em propinas. Esse valor seria dividido entre uma pessoa identificada como “Fátima”, que receberia 10%, e o prefeito, que ficaria com os referidos 15%. Segundo a decisão, essa partilha deixaria apenas trinta mil reais para a empresa, o que gerava reclamações entre os sócios sobre a margem de lucro reduzida.
A decisão narra ainda o modus operandi fraudulento: a Prefeitura emitia uma Ordem de Compra no valor de 400 mil reais, mas a empresa entregava efetivamente apenas metade dos produtos, o equivalente a 200 mil reais. O valor restante, pago pelos cofres públicos por bens nunca recebidos, seria utilizado para cobrir as margens de lucro dos empresários e o pagamento das comissões ilícitas aos agentes políticos.
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