Domingo, 27 de setembro de 2026

Postado às 10h30 | 27 set 2026 | redação É muito grave: Vídeos da Operação Mederi deixam Allyson em situação delicada

Crédito da foto: Reprodução / Blog do Dina Sócio da DisMed aparece em vídeo falando sobre propina e dinheiro para campanha

Da Redação do Jornal de Fato

O candidato a governador Allyson Bezerra (União Brasil) encerra a penúltima semana da campanha eleitoral do 1º turno em situação bastante delicada diante da revelação de vídeos sobre pagamento de propina e caixa de campanha, no âmbito da Operação Mederi. Os vídeos foram divulgados pelo jornal Diário do RN e pelo Blog do Dina, do jornalista Dinarte Assunção, respectivamente.

As imagens são fruto de uma escuta ambiental implantada por agentes da Polícia Federal no escritório da DisMed Distribuidora de Medicamentos, com o intuito de servir como prova documental para a Operação Mederi.

Os conteúdos são considerados estarrecedores, uma vez que as imagens com áudio revelam como os sócios da DisMed, suspostamente, distribuíam o dinheiro desviado da saúde pública de Mossoró. O esquema foi desbaratado pela Polícia Federal em operação conjunta com agentes da Controladoria-Geral da União (CGU), deflagrada no dia 27 de janeiro de 2026.

Allyson Bezerra, então prefeito de Mossoró, é colocado pela Polícia Federal no “topo” da organização criminosa e aparece como um dos principais investigados. Na operação, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão no duplex do atual candidato a governador, localizado no condomínio Ninho, zona leste da cidade.

Na edição de quarta-feira, 23, o Diário do RN divulgou o vídeo gravado pela Polícia Federal, com autorização da Justiça Federal, em que um dos sócios da DisMed cita como os recursos desviados seriam distribuídos em pagamento de propina, no que ficou conhecido como a “matemática de Mossoró:

“... dos R$ 140, ele ganha R$ 70. R$ 70 com R$ 60, é meu, R$ 130; só que dos R$ 130, nós temos que pagar R$ 100 mil a Allyson e a Fátima. É 10% de Fátima e 15% de Allyson; só ficou R$ 30 mil para a empresa.”

Nesta sexta-feira, 25, foi o Blog do Dina que tornou público o vídeo em que os sócios da DisMed tratam sobre suposto caixa de campanha para Allyson Bezerra. São 3 minutos e 35 segundos gravados na manhã de 14 de maio de 2025, a partir das 9h09, na mesma sala dos outros vídeos. Desta vez a conversa é entre o sócio Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares, que a PF trata como sócio de fato da empresa, e o assunto é o que fazer com a propina.

O jornalista Dinarte Assunção noticia que a frase central é de Moabe, simulando o que diria a uma pessoa chamada “Marco”, possivelmente o atual prefeito de Mossoró Marcos Bezerra (Republicanos): “Eu tenho que dar aqui a você duzentos mil de propina hoje. Aí eu pago cem, você está entendo, e cem… você guardando pra sua campanha”. Oseas concorda: “É!”. Nos minutos anteriores, no primeiro dos dois arquivos que compõem o vídeo, era Oseas quem propunha o mesmo desenho: “vou até combinar com Marco dizendo assim: Marco, eu tenho que criar moral com o homem. Será que não é melhor essa propina você ir juntando… guarde, pra quando chegar a campanha… Você bota aí um ano e nós junta aqui quinhentos”.

O diálogo captado por vídeo pela Polícia Federal segue entre os sócios:

- MOABE: Mas… Ele vai cobrar o valor. Eu tenho que dar aqui a você duzentos mil de PROPINA hoje. Aí eu pago cem (R$ 100.000,00) você está entendo e cem… você guardando pra sua CAMPANHA.

- OSEAS: É!

- MOABE: Agora, aquele negócio, porque… Você chegando na campanha ou na campanha de ALLYSON, você chegou na campanha de ALLYSON independente de qualquer coisa, você vai dizer assim. ALLYSON… [trecho inaudível] …vai desconfiar de que ele está roubando…

- OSEAS: Não, …a campanha dele não…

- MOABE: Ele tem que se preocupar com a campanha dele (MARCO)

OSEAS: Pra dele, homi! …Um monte de estória. Agora, por exemplo… a gente chegar com moral com o HOMEM (?) pra GOVERNO.

MOABE: É!

É possível que novos áudios venham ao conhecimento o público nos próximos dias. O jornalista Dinarte Assunção já noticiou que a Polícia Federal gravou mais de uma dezena de vídeos em que aparecem os sócios da DisMed tratando sobre os recursos da saúde pública de Mossoró, que seriam para aquisição de medicamentos.

A Operação Mederi investiga um esquema criminoso que desviou pelo menos R$ 13 milhões da saúde pública, por meio de contratos fraudulentos, não entrega de medicamentos e superfaturamento. Os recursos desviados seriam para pagamento de propina e, possivelmente, para fazer caixa de campanha eleitoral.

 

Allyson não apresenta defesa sobre os vídeos

Allyson Bezerra optou pelo silêncio. Ele tem evitado a imprensa e/ou qualquer questionamento sobre a Operação Mederi. A publicação dos vídeos que está repercutindo na imprensa, redes sociais e na campanha eleitoral, não teve, até aqui, nenhuma explicação por parte do ex-prefeito de Mossoró e candidato a governador.

A defesa de Allyson Bezerra também não se manifestou. Segue apenas sustentando o que diz desde o primeiro dia da operação, que a investigação se apoia em conversas de outras pessoas. Foi a linha da nota dos advogados em 27 de janeiro, quando afirmaram que a busca e apreensão no duplex de Allyson Bezerra tinha se baseado em diálogo envolvendo terceiros.

Essa também foi a linha da petição com que a defesa de Allyson pediu ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RN), neste mês, a retirada de uma propaganda adversária sobre a Operação Mederi. Argumentou, sem sucesso, que os elementos da investigação “decorreriam de diálogo entre terceiros” e “não haveria imputação formal” contra Allyson.

Não há manifestação nova da defesa sobre os vídeos que estão circulando. E trata-se, de fato, de um diálogo entre terceiros: nenhum agente público aparece na sala nem fala na gravação.

A estratégia do silêncio, assumida por Allyson, é uma forma de atenuar a repercussão do rumoroso caso na reta final da campanha. No entanto, há o risco de o eleitor entender que o silêncio é uma confissão de culpa.

Na próxima terça-feira, 29, acontecerá o último debate entre os candidatos a governador, promovido pela Intertv Cabugi, afiliada da Globo no Rio Grande do Norte, e certamente os adversários de Allyson Bezerra vão explorar a Operação Mederi.

Quem é “o homem” e quem é “Marco” citados nos vídeos?

O jornalista Dinarte Assunção, em sua reportagem investigativa sobre a Operação Mederi, esclarece, com base na versão da Polícia Federal, quem é o “homem” e quem é “Marco” citados pelos sócios da DisMed Distribuidora de Medicamentos, Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares no vídeo gravado pela PF sob autorização do desembargador Rogério Fialho, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), relator do caso.

“Os nomes que aparecem no vídeo são os que Oseas e Moabe dizem. Quem os lê como pessoas reais é a Polícia Federal, no laudo que catalogou a escuta. Ali, Marco é ‘provavelmente o (então) vice-prefeito da cidade de Mossoró/RN, Marcos Antônio Bezerra de Medeiros, futuro candidato a cargo eletivo e destinatário de valores (propina) a ser oferecida pelos representantes da DisMed.’ E sobre ‘o homem’, a PF escreve: ‘entendemos aqui que a referência é feita ao atual prefeito de Mossoró/RN, Allyson Leandro Bezerra Silva.’ O advérbio e o verbo são da PF, ‘provavelmente’ e ‘entendemos’, e este blog os mantém.”

No segundo arquivo, o nome de Allyson deixa de ser interpretação e passa a ser dito. Moabe fala em “campanha de Allyson” duas vezes, e Oseas, em “dizer o seguinte a Allyson”. A PF resume assim: há “menção direta aos nomes do atual prefeito e vice de Mossoró/RN, respectivamente Allyson e Marcos, o primeiro como candidato ao governo do Estado”.

Na peça em que pediu as medidas da operação, a Polícia Federal acrescentou um parágrafo de contexto: “no atual cenário político do município de Mossoró, Allyson Bezerra está sendo projetado como futuro candidato a governador do estado do Rio Grande do Norte”, e anexou uma pesquisa de intenção de voto. Hoje ele é o candidato.

Marcos Medeiros é hoje o prefeito de Mossoró. Assumiu em 27 de março, quando Allyson renunciou ao cargo para disputar as eleições deste ano. Na data da gravação, Marcos era vice-prefeito, e a PF registra que os diálogos “ocorreram já no ano de 2025, quando Marcos Antônio já havia assumido como vice-prefeito e não ocupava mais nenhuma função na Secretaria de Saúde”. O contato direto entre Oseas e Marcos, diz a PF, foi constatado em mensagens e ligações de WhatsApp reunidas numa informação policial.

O que o juiz escreveu sobre esta fala

Quando autorizou a Operação Mederi, em 22 de janeiro, o desembargador federal Rogério Fialho, relator do caso, dedicou um trecho ao vídeo em que os sócios da DisMed são flagrados falando sobre propina e dinheiro para campanha eleitoral.

Rogério Fialho escreveu:

“Essa fala não deixa muita margem a outras interpretações: os interlocutores discutem abertamente o pagamento de propina e sua destinação para campanha política”.

E mais:

“(os dois) discutem a estratégia de acumular valores de propina para financiamento de campanha futura, mencionando tanto Allysson Leandro Bezerra Silva quanto Marcos Antônio Bezerra de Medeiros neste contexto. Estão cientes desta dinâmica sucessória e planejam suas ações considerando este cenário futuro”.

A decisão também diz o que o vídeo não prova sozinho. A contribuição de Allyson na estrutura descrita “seria, conforme os indícios até aqui coletados, a de garantir a continuidade dos contratos”, e a anuência dele “seria, em tese, essencial para a manutenção do sistema”.

É a mesma cautela que a Polícia Federal usa quando escreve “provavelmente” e “entendemos”. Ninguém foi denunciado até aqui. A investigação está em curso no Tribunal Regional Federal da 5ª Região.

 

Os dois milhões no apartamento

O vídeo publicado pelo Blog do Dina guarda uma segunda frase que a Polícia Federal usou para outro fim. No meio da conversa sobre a campanha eleitoral, José Moabe Zacarias Soares, sócio da DisMed Distribuidora de Medicamentos, diz que guardou “quase dois contos” — dois milhões, na leitura da PF — num “apartamento de Aldo”: “Eu fiquei com o cu que não passava um cabelo”.

A Polícia Federal cita essa fala no bloco sobre lavagem de dinheiro, como indício de “armazenamento de dinheiro em espécie”, ao lado das fotos de dinheiro em gavetas na sala dos sócios.

O “Aldo” da conversa é associado pela PF a Aldo Araújo, chefe do controle interno de Serra do Mel, município cuja prefeitura é investigada no mesmo caso, e que a peça da PF identifica como sogro de Moabe.

Na transcrição, o nome vem seguido de um ponto de interrogação, marca da própria PF para o que ela não teve como confirmar.

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