Allyson Bezerra em evento quando era prefeito de Mossoró
Por Dinarte Assunção / Blog do Dina
Onze dias antes de renunciar à Prefeitura de Mossoró para disputar o Governo do Rio Grande do Norte, Allyson Bezerra abriu uma empresa. A Chafariz Agrocampo Ltda nasceu em 16 de março de 2026, com capital de R$ 150 mil, para criar ovinos, bovinos e frangos e plantar milho no Sítio Chafariz, a comunidade rural onde ele cresceu. O sócio é ele. O administrador é Samuel Silvério Rodrigues de Morais, assessor especial do gabinete do prefeito até 5 de janeiro deste ano, quando o próprio Allyson assinou a portaria que o exonerou.
Não é um nome qualquer do quadro. Samuel deixou o gabinete em agosto de 2024, dois dias antes da data em que a campanha de Allyson registra a contratação dele como motorista, por R$ 3 mil. Voltou ao cargo em 10 de outubro, quatro dias depois da eleição, por portaria assinada pelo próprio Allyson. Desde a volta, teve ao menos R$ 3.816,25 em diárias concedidas para “assessorar o chefe do Executivo” em Natal. Saiu do gabinete de novo em 5 de janeiro deste ano, por portaria do próprio Allyson. Setenta dias depois, era o administrador do negócio privado do então prefeito.
A Chafariz Agrocampo existe na Receita Federal, com CNPJ ativo e endereço no sítio. Na declaração de bens que Allyson entregou à Justiça Eleitoral em agosto, há uma linha de “quotas em pessoa jurídica” de R$ 150.000,00. A linha não traz o nome da empresa. A Agrocampo é a única empresa localizada em nome dele com esse capital.
Por que voltei a esse cadastro
No sábado (12), o Blog do Dina mostrou que a Chafariz Consultoria e Produções, a outra empresa de Allyson, ficou fora da declaração de 2024 e que a de 2026 trazia duas linhas de quotas sem dono: uma de R$ 15 mil, o valor exato da Consultoria, e outra de R$ 150 mil, que naquele momento não batia com nenhuma empresa em nome dele nas bases consultadas. Escrevi que os R$ 150 mil “não têm dono conhecido”.
Agora há uma candidata única. A Chafariz Agrocampo é de março deste ano, e as bases de sócios que o blog usou no sábado ainda não a tinham incorporado. O cadastro oficial da Receita, consultado no mesmo dia, traz a empresa completa: capital social de R$ 150 mil, exatamente o valor da segunda linha, e um único sócio, Allyson Leandro Bezerra Silva, desde a abertura.
O assessor
Samuel Silvério Rodrigues de Morais tem matrícula 0536571 na Prefeitura de Mossoró. Em 20 de maio de 2024, o Diário Oficial do Município já o registrava como assessor especial do Gabinete do Prefeito, com três diárias e meia, R$ 1.400, para acompanhar Allyson em Natal.
Em 14 de agosto de 2024, a Portaria nº 572 o exonerou, “a pedido”, do cargo em comissão de Assessor Especial I, símbolo CC3. A prestação de contas que a campanha de Allyson à reeleição entregou à Justiça Eleitoral registra, com data de 16 de agosto, dois dias depois, a contratação de Samuel para “serviço de motorista”, R$ 3 mil, na rubrica “despesas com pessoal”. O CPF do motorista na prestação de contas é o mesmo que a Receita mostra, com os dígitos centrais à vista, no cadastro da Agrocampo.
A eleição foi em 6 de outubro. Em 10 de outubro, a Portaria nº 678, assinada por Allyson, nomeou Samuel de novo para o mesmo cargo, no mesmo gabinete. Não foi o único: a mesma edição do Diário Oficial traz outras dez nomeações para o Gabinete do Prefeito, quatro delas para Assessor Especial I e seis para Assessor Especial II.
Samuel ficou no cargo até o começo deste ano. Em 5 de janeiro, a Portaria nº 3, também assinada por Allyson, o exonerou de Assessor Especial I, símbolo CC4, com lotação no Gabinete do Prefeito. A portaria não diz por quê.
Setenta dias depois, em 16 de março, ele aparece no cadastro da Receita Federal como administrador da Chafariz Agrocampo — a empresa aberta pelo prefeito que assinara sua exoneração.
R$ 5,2 mil em diárias para acompanhar o chefe
Antes e depois da campanha, Samuel teve diárias para acompanhar o prefeito. O Blog do Dina localizou seis portarias em seu nome entre maio de 2024 e abril de 2025, somando ao menos R$ 5.216,25, todas com destino a Natal e a mesma finalidade: assessorar o chefe do Executivo. Uma é anterior à exoneração de 2024; as outras cinco, de R$ 3.816,25 no total, vêm depois da volta ao gabinete. São as portarias localizadas — o período anterior a abril de 2025 não foi varrido edição por edição, e pode haver mais.
Em 18 e 19 de novembro de 2024, uma diária e meia, R$ 600, para a certificação do Selo Unicef. Em 25 e 26 de novembro, mais R$ 600, “agenda institucional”. Em 14 de fevereiro de 2025, meia diária, R$ 201,25. Em 9 de abril, duas diárias e meia, R$ 1.006,25, para “assessorar o Chefe do Executivo no lançamento do evento Mossoró Cidade Junina 2025“. Entre 23 e 26 de abril, três e meia, R$ 1.408,75, de novo para “agenda institucional e administrativa” em Natal. Nas duas últimas, o cargo já aparece como Assessor Especial I, símbolo CC4.
O que é a Chafariz Agrocampo
A Chafariz Agrocampo Ltda tem CNPJ 65.709.889/0001-26 e situação “ativa” desde 16 de março de 2026. A atividade principal declarada é “criação de ovinos, inclusive para produção de lã”. Entre as dezoito secundárias estão as que desenham uma fazenda: cultivo de milho e de outros cereais, criação de bovinos de corte e de leite, caprinos, frangos de corte, produção de ovos e serviço de preparação de terreno, cultivo e colheita.
O endereço é “Chafariz, 21, zona rural, Mossoró”. O sítio dá nome à Chafariz Agrocampo, como já dava à Consultoria de 2021, e é a marca da biografia que Allyson conta em campanha.
No quadro societário há duas pessoas. Allyson Leandro Bezerra Silva, qualificado como sócio. Samuel Silvério Rodrigues de Morais, qualificado como administrador — a Receita distingue as duas coisas, e a base pública não diz como as quotas estão divididas. Os dois entram na mesma data. Onze dias depois, em 27 de março, Allyson entregou o cargo a Marcos Medeiros para concorrer ao governo.
O Tesouro que sumiu, a quota que entrou
A declaração de bens explica de onde pode ter saído o capital, ainda que não diga isso com todas as letras. Em 2024, Allyson declarou R$ 151.343,93 em aplicações no Tesouro Direto e nenhuma quota de empresa. Em 2026, o Tesouro sumiu da lista, restou um título público de R$ 353,50, e entraram as “quotas em pessoa jurídica” de R$ 150 mil.
Entraram também um trator agrícola de R$ 160 mil, comprado com empréstimo bancário ainda não quitado, e um imóvel em Tibau adquirido em 2025, com R$ 30 mil já pagos. O patrimônio declarado subiu de R$ 582.092,31 para R$ 748.869,84.
Nada disso é irregular por si. Ter empresa no sítio da família é lícito, comprar trator é lícito, declarar quota pelo valor é o que o formulário pede. O que a sequência documentada mostra é outra coisa: o então prefeito abriu um negócio privado no fim do mandato, escolheu para administrá-lo um homem que servira como assessor comissionado do seu gabinete até dez semanas antes — exonerado por portaria que ele mesmo assinou — e que dezenove meses antes tinha sido contratado pela campanha, e entregou à Justiça Eleitoral uma declaração em que a quota de R$ 150 mil aparece sem o nome da empresa.
O que fica em aberto
A folha de pagamento publicada pela Prefeitura registra a saída na mesma data e mostra o que o cargo pagava: na competência de dezembro de 2025, R$ 7.550 brutos, R$ 6.197,02 líquidos, como Assessor Especial I do Gabinete, em regime comissionado, com admissão em 10 de outubro de 2024 e rescisão em 5 de janeiro de 2026. A situação registrada é “exonerado”. No Diário Oficial, uma varredura das edições entre abril de 2025 e a de sexta-feira (11) não encontrou nova nomeação em seu nome — a busca foi por termo no texto das edições, de modo que um ato publicado apenas como imagem escaparia. O que Samuel faz desde janeiro, o blog não sabe.
O capital de R$ 150 mil foi integralizado, e com que dinheiro? A Chafariz Agrocampo tem produção, empregados, movimento? Por que o administrador é o ex-assessor do gabinete e não o próprio sócio, que naquele 16 de março ainda era prefeito?
Uma busca nos empenhos que as secretarias e fundos de Mossoró remeteram ao Tribunal de Contas do Estado em 2025 e 2026 não encontrou empenho algum em favor da Chafariz Agrocampo nem de Samuel como fornecedor. Dinheiro público, até aqui, não apareceu. As perguntas continuam.
O espaço está aberto para manifestação.
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