Sábado, 18 de julho de 2026

Postado às 11h15 | 18 jul 2026 | redação Entrevista exclusiva: Cabo Deyvison fala sobre a sua infância, carreira política e atentado

Da infância humilde às ruas no combate à criminalidade, da farda da Polícia Militar à tribuna da Câmara Municipal de Mossoró. Essa é a trajetória do vereador Cabo Deyvison, que trava luta em defesa das periferias e contra as estruturas tradicionais

Crédito da foto: Reprodução Vereador Cabo Deyvison concede entrevista exclusiva ao jornalista Márcio Morais

Redação do Jornal de Fato

Da infância humilde às ruas no combate à criminalidade, da farda da Polícia Militar à tribuna da Câmara Municipal de Mossoró. Essa é a trajetória do vereador Cabo Deyvison, que trava luta em defesa das periferias e contra as estruturas tradicionais da política e do crime organizado.

Pré-candidato a deputado federal pelo PL, ele resiste à ofensiva do MDB, do vice-governador Walter Alves, que quer lhe tirar o mandato. Também se mostra firme na defesa das famílias que residem na periferia de Mossoró, após sofrer atentado e ser baleado nas pernas. O fato ocorrido no dia 15 de junho deste ano, abreviou a vida do assessor Alyson Diego, e segue em investigação pela Polícia Civil do Rio Grande do Norte.

Cabo Deyvison concedeu entrevista exclusiva ao jornalista Márcio Morais, do portal “O Vale do Apodi”, cedida ao “Cafezinho com César Santos”.  Em uma conversa franca e repleta de revelações, o vereador relembra as dificuldades enfrentadas na infância, a luta para realizar o sonho de se tornar policial militar e os desafios encontrados ao longo da carreira.

Ele também fala sobre a decisão de ingressar na política, o trabalho de fiscalização que desenvolve no Legislativo, a tentativa de cassação de seu mandato e o atentado que sofreu. Confira.

Márcio Morais – Como foi sua infância? Onde o senhor nasceu e quais são as lembranças mais marcantes desse período?

Cabo Deyvison – Eu vim de uma realidade simples, de uma família humilde, e desde muito cedo aprendi o valor do trabalho e da luta. Minhas lembranças são de uma infância sem luxo, mas cercada pela minha família e por pessoas que me ensinaram princípios que carrego até hoje. Foi essa realidade que me fez entender, ainda muito jovem, as dificuldades que o povo mais humilde enfrenta. Nós passamos pelas dificuldades que muitas famílias brasileiras conhecem. Houve momentos em que era necessário escolher prioridades e fazer sacrifícios. Eu sei o que é ver os pais preocupados com as contas e sei o valor que tem cada conquista para quem começa de baixo. Talvez por isso eu tenha tanta identificação com as periferias e com as comunidades mais humildes. Eu conheço essa realidade não porque alguém me contou, mas porque eu vivi.

 

Em algum momento sua família pensou que o senhor teria que abandonar os estudos para trabalhar?

A necessidade de trabalhar sempre esteve presente. Para quem nasce em uma família humilde, muitas vezes amadurecer cedo não é uma escolha. Mas eu sempre entendi que o estudo, o trabalho e a disciplina eram caminhos para mudar a minha realidade. Foi com muito esforço que consegui seguir em frente.

 

De onde surgiu o sonho de ser policial militar? Houve alguém que o inspirou a seguir essa profissão?

Sempre tive dentro de mim essa vontade de servir e proteger as pessoas. A Polícia Militar representava para mim disciplina, coragem e a oportunidade de fazer a diferença na vida de quem precisava. O sonho foi crescendo até se transformar em um objetivo de vida. O meu maior desafio foi vencer as limitações que a própria vida impõe a quem começa de baixo. Concurso para entrar para a Polícia Militar exige preparação, dedicação e renúncia. Não existe caminho fácil. Foi preciso estudar, preparar-me e acreditar que seria possível.

O que a carreira policial ensinou ao homem e ao político que o senhor é hoje?

A Polícia Militar me ensinou que, quando o problema chega, você não pode simplesmente virar as costas. Você precisa enfrentar. Aprendi disciplina, responsabilidade e, principalmente, a estar perto das pessoas nos momentos mais difíceis. Levei isso para a política. Quando uma comunidade está sofrendo, quando falta água, quando existe abandono ou alguma injustiça, eu não consigo ficar dentro de um gabinete fingindo que nada está acontecendo.

 

Em que momento surgiu o desejo de entrar para a política? Como aconteceu essa transição da farda para o mandato parlamentar?

Eu comecei a perceber que muitos dos problemas que enfrentamos nas ruas não seriam resolvidos apenas pela atuação policial. Existem problemas que dependem de leis, de fiscalização e de decisões políticas. Foi aí que comecei a entender que poderia contribuir também nesse espaço. Entrei na política para representar principalmente quem muitas vezes não tem voz. E desde o primeiro dia deixei claro: meu mandato não pertence a grupo político, não pertence a prefeito, não pertence a partido. Meu mandato pertence ao povo.

 

Como vereador, qual considera ter sido sua maior conquista até agora?

A maior conquista foi mostrar que é possível exercer um mandato estando nas ruas e ouvindo as pessoas. Mais do que uma obra específica ou uma fiscalização, acredito que conseguimos devolver a muitas pessoas a sensação de que existe alguém disposto a ouvir, cobrar e enfrentar os problemas junto com elas. Quando uma comunidade me chama, eu procuro estar presente. Esse contato direto com o povo é uma das maiores marcas do nosso mandato.

O senhor ficou conhecido pela fiscalização e pelo contato direto com a população. Acredita que essa postura incomoda interesses políticos ou criminosos?

Sem dúvida, quem fiscaliza incomoda. Quem denuncia incomoda. Quem não aceita entrar no jogo político também incomoda. Eu sempre disse que não sou situação nem oposição por conveniência. Meu lado é o povo. Quando está certo, vou reconhecer. Quando está errado, vou cobrar. E quem decide enfrentar interesses poderosos precisa saber que haverá reação. Mas eu nunca imaginei que essa reação pudesse chegar ao nível de violência que nós enfrentamos.

 

Já passou mais de um mês do atentado que o senhor sofreu, como se sente fisicamente e emocionalmente?

Fisicamente, ainda estou em processo de recuperação e seguindo as orientações necessárias. Emocionalmente, é algo muito mais difícil. Eu sobrevivi, mas perdemos Alyson. Então existe a gratidão por estar vivo, mas existe também uma dor enorme pela perda de alguém que estava ao meu lado. São marcas que não desaparecem de uma hora para outra.

 

Depois de sobreviver ao atentado que vitimou seu assessor Alyson Dyego, sua forma de enxergar a vida e a política mudou?

Muda muita coisa. Você passa a entender ainda mais o valor da vida, da família e das pessoas que caminham ao seu lado. Politicamente, o que aconteceu não diminuiu minhas convicções. Pelo contrário. Eu sei que existe um preço para quem decide não se render. Mas também aprendi que precisamos ter ainda mais responsabilidade porque nossas decisões não atingem apenas a nossa própria vida. Existem familiares, amigos e pessoas que trabalham conosco.

Em algum momento o senhor pensou em abandonar a vida pública após o ataque?

É impossível passar por uma situação como essa e não refletir sobre tudo. Mas abandonar a vida pública significaria permitir que o medo decidisse o meu futuro. E eu não quero que a violência determine quem pode ou não pode fazer política. Vou continuar. Com responsabilidade, com os cuidados necessários, mas sem abandonar aquilo em que acredito.

 

O senhor acredita que o atentado teve relação direta com sua atuação parlamentar? Por quê?

Eu acredito que todas as possibilidades precisam ser investigadas pelas autoridades. Ao longo do meu mandato fiz denúncias, fiscalizações e enfrentei interesses. Antes do atentado, inclusive, já existiam informações e preocupações relacionadas à minha segurança. Agora cabe à investigação esclarecer quem planejou, quem executou e qual foi a motivação. O que eu quero é que toda a verdade apareça. Eu tenho respeito pelo trabalho das forças de segurança e sei da capacidade dos profissionais que estão envolvidos nas investigações. Espero uma investigação profunda, independente e que chegue não apenas aos executores, mas, caso existam, aos mandantes e a todas as pessoas envolvidas. A sociedade precisa dessa resposta e a família de Alyson, também.

Antes do atentado, o senhor já havia recebido ameaças ou informações sobre possíveis riscos à sua segurança?

Já existiam informações que indicavam riscos e preocupações com a minha segurança. Essas situações foram tratadas e levadas às autoridades. Por isso considero ainda mais importante que toda a sequência dos acontecimentos seja analisada durante a investigação.

 

O que representa para o senhor a perda do assessor Alyson Dyego, que estava ao seu lado no momento do crime?

Essa talvez seja uma das perguntas mais difíceis para eu responder. Alyson não era apenas alguém que trabalhava comigo. Era uma pessoa que fazia parte da nossa caminhada. É muito difícil aceitar que alguém perdeu a vida estando ao meu lado. Existe uma dor que palavras não conseguem explicar. O que eu posso dizer é que jamais vou esquecer Alyson e que espero que a Justiça consiga esclarecer completamente esse crime.

 

A violência contra agentes públicos tem aumentado. O que precisa mudar para garantir mais segurança a vereadores, jornalistas e demais lideranças públicas?

Precisamos garantir que qualquer ameaça contra uma pessoa em razão de sua atuação pública seja tratada com a seriedade necessária. Quando alguém denuncia corrupção, crime organizado ou outros interesses poderosos, não podemos esperar que aconteça uma tragédia para agir. Também precisamos fortalecer nossas forças de segurança, inteligência e investigação. O Estado precisa estar preparado para proteger quem está cumprindo o seu papel e enfrentando o crime.

Após esse episódio, o senhor reforçou sua segurança pessoal ou vai mudar a forma de realizar fiscalizações e transmissões ao vivo? Como será o Cabo Deyvison depois da recuperação?

Algumas mudanças serão necessárias. Não seria responsável da minha parte simplesmente ignorar tudo o que aconteceu. Minha segurança precisará ser tratada com mais cuidado e algumas atividades precisarão de um planejamento diferente. Mas uma coisa eu posso garantir: não vou abandonar as ruas. O Cabo Deyvison depois da recuperação será uma pessoa mais cuidadosa, mas continuará sendo o mesmo homem que acredita que político precisa estar perto do povo.

 

O MDB ingressou com uma ação que pode resultar na cassação do seu mandato. Como o senhor recebeu esse processo e qual é sua expectativa em relação ao julgamento?

Recebo com tranquilidade e com respeito à Justiça. Minha defesa está sendo feita pelos meios jurídicos adequados e confio que os fatos serão analisados. Quem vai decidir sobre os fundamentos jurídicos é a Justiça. É evidente que qualquer processo envolvendo um mandato político também gera repercussões e interesses políticos. Mas não quero antecipar julgamento. Vou apresentar minha defesa, confiar na Justiça e continuar trabalhando.

Qual é o seu maior sonho hoje: na vida pessoal, na carreira política e para Mossoró?

Na vida pessoal, meu maior desejo hoje é estar com minha família, recuperar-me completamente e seguir em frente. Na política, meu sonho é continuar representando as pessoas que acreditam no nosso trabalho e ampliar essa luta. E para Mossoró, sonho com uma cidade onde o lugar onde você nasceu não determine até onde você pode chegar. Uma cidade onde a criança da periferia tenha oportunidade, educação, esporte e segurança para construir um futuro diferente.

 

Para finalizar, qual mensagem o senhor gostaria de deixar à população de Mossoró e de todo o Rio Grande do Norte, que acompanhou esse caso com grande comoção?

Primeiro, quero agradecer. Agradecer por cada oração, cada mensagem, cada palavra de carinho e cada pessoa que demonstrou preocupação comigo e com minha família. Eu ainda estou impossibilitado de voltar a percorrer nosso Estado da forma que gostaria, porque preciso respeitar meu processo de recuperação. Mas quero que as pessoas saibam que eu não desisti. Eu não tenho padrinho político, não tenho uma grande estrutura por trás de mim. O que eu tenho é o apoio das pessoas que acreditam no nosso trabalho. E depois de tudo o que aconteceu, esse apoio tem um significado ainda maior. Vou me recuperar. Vou voltar para as ruas. E, enquanto Deus me permitir, continuarei defendendo aquilo em que acredito. Podem tentar nos intimidar, podem tentar nos fazer recuar, mas a minha decisão continua sendo a mesma: meu lado é o povo.

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