Edição do festival de música evangélica do ano passado, a gestão Allyson utilizou mais de R$ 2,7 milhões com o pagamento de cachês para artistas religiosos, sendo utilizado o mecanismo da inexigibilidade. O alto valor de cachês chama a atenção
Allyson Bezerra aparecendo no Festival Mosoró Sal & Luz
Da Redação do Jornal de Fato
O ex-prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra (União Brasil), ganhou uma nova dor de cabeça que exigirá um bom remédio para se livrar. É que o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) instaurou um inquérito civil para apurar supostas irregularidades na aplicação de recursos públicos no evento “Mossoró Sal & Luz”, em 2025.
A notícia foi dada em primeira mão pelo portal Novo Notícias, nesta quarta-feira, 10. Segundo a publicação, na edição do festival de música evangélica do ano passado, a Prefeitura de Mossoró utilizou mais de R$ 2,7 milhões com o pagamento de cachês para artistas religiosos, sendo utilizado o mecanismo da inexigibilidade de licitação, para cachês de alguns artistas acima de R$ 200 mil, o que é vedado por lei.
Os gastos em excesso teriam ocorrido porque Allyson Bezerra, que é pré-candidato a governador do Rio Grande do Norte e estava organizando a sua última edição do “Sal & Luz”, decidiu ampliar o número de dias do evento, o que exigiu mais recursos públicos. A edição 2025 saltou de três para cinco dias na Estação das Artes Elizeu Ventania.
A investigação do Ministério Público foca justamente no volume de investimentos públicos utilizados no evento. “Segundo a portaria assinada pelo promotor de justiça em substituição Fábio de Weimar Thé, o inquérito dá sequência ao procedimento preparatório 03.23.2039.0000165/2025-59, instaurado em 18 de dezembro de 2025, já com o intuito de averiguar a aplicação de recursos municipais no festival religioso”, revela a reportagem do Novo.
“A conversão de um procedimento administrativo em inquérito civil acontece após a coleta de indícios preliminares suficientes de irregularidades que exigem investigação mais aprofundada. Segundo a portaria, os autos agora retornam ao gabinete para análise da documentação mais recente enviada pela prefeitura de Mossoró”, explica.
A edição de 2025 do “Mossoró Sal & Luz” reuniu diversos nomes da música evangélica e Allyson propagou que era o “Maior evento gospel do Nordeste Brasileiro”. Na mesma proporção, o ex-prefeito não economizou recursos públicos.
Somente com o pagamento de cachês, a Prefeitura de Mossoró gastou R$ 2,7 milhões, segundo levantamento feito pelo NOVO a partir de informações obtidas no portal da transparência do município. “O maior contrato foi para a cantora gospel Maria Marçal que recebeu R$ 230 mil pela apresentação”, revela.
Além de Maria Marçal, os maiores cachês foram de Bruna Karla (R$ 220 mil), Isadora Pompeo (R$ 220 mil), Cassiane (R$ 210 mil), Thalles Roberto (R$ 200 mil) e a banda Som & Louvor (R$ 180 mil).
Num levantamento feito pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-RN), o último ano da gestão Allyson Bezerra gastou R$ 25,7 milhões com festejos populares. As informações foram consolidadas e disponibilizadas pelo portal de transparência “Painel Festejos”, que monitora a aplicação de recursos em eventos públicos estaduais e municipais. Ao todo, a administração municipal firmou 102 contratos para a realização de festividades ao longo do ano.
Esses números, porém, podem ser ainda maiores, uma vez que há desconfiança que gastos com estrutura de eventos podem ter sido “encobertos” por outras rubricas.

Allyson é investigado pela Polícia Federal no âmbito da Operação Mederi
O ex-prefeito e pré-candidato a governador Allyson Bezerra tem problemas graves para resolver. O maior deles diz respeito à Operação Mederi, que desmantelou um esquema criminoso de desvio de recursos da saúde pública de Mossoró. A operação foi detonada no dia 27 de janeiro deste ano, um ano antes de Allyson renunciar ao mandato de prefeito para ser candidato nas eleições de 4 de outubro.
Segundo a decisão do desembargador Rogério Fialho, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região (TRF-5), que autorizou a operação da Polícia Federal, o ex-prefeito estaria no “topo” da estrutura criminosa. Além dele, o atual prefeito Marcos Bezerra (Republicanos) e auxiliares do município também são investigados.
A Polícia Federal investiga crimes como corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e associação criminosa. As investigações estão avançando. Há duas semanas, a PF concluiu a quebra de criptografia de 32 dos 35 aparelhos celulares apreendidos na Operação Mederi. Os investigadores conseguiram acessar os dados de Allyson e dos outros investigados. Apenas três aparelhos continuam inacessíveis.
Os celulares que permaneceram bloqueados pertencem a homens de confiança do ex-prefeito: o atual prefeito Marcos Medeiros e o ex-secretário de Saúde, Almir Mariano. Os investigadores planejam solicitar o uso de serviços avançados de extração de dados (como os da israelense Cellebrite) para quebrar a criptografia desses telefones restantes. O material extraído está sob análise da Polícia Federal.
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