Domingo, 10 de May de 2026

Postado às 09h00 | 10 May 2026 | redação Eleições 2026: MDB do RN recorre à mesma tática doze anos depois

Crédito da foto: Reprodução Walter Alves rompeu com a governadora Fátima Bezerra no ano eleitoral

Por Edilson Damasceno / Jornal de Fato

O ano de 2014 tem ligações profundas com 2026: o mesmo modus operandi, com uma roupagem atualizada, foi dada pelo MDB às definições políticas. No primeiro ano, para facilitar a postulação do então deputado federal Henrique Eduardo Alves, o partido buscou o suporte do extinto Democratas (atual União Brasil) para brecar a reeleição de Rosalba Ciarlini, governadora à época. Doze anos depois, a legenda fez birra e anunciou rompimento depois que o vice-governador Walter Alves decidiu não assumir a titularidade do cargo em virtude da então renúncia da governadora Fátima Bezerra (PT).

A leitura plausível desse comportamento leva à crença de que o MDB fez valer o que sempre foi em sua essência: um partido de conveniência e que pende para o lado que lhe parecer mais conveniente. Essa é a análise do cientista político, professor doutor Vanderlei Lima, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

Segundo o cientista político, nas eleições de 2014 e nos momentos que antecedem às deste ano, o MDB demonstrou postura estratégica para influenciar resultados eleitorais, agindo no sentido de evitar a continuidade de certas lideranças em cargos eletivos importantes no Rio Grande do Norte.

Em 2014, por exemplo, houve o escanteamento político de Rosalba Ciarlini para que Henrique Eduardo Alves pudesse ser a bola da vez e chegar ao Governo do Estado. Ocorre que o golpe praticado contra a então governadora não foi bem assimilado pelo eleitorado potiguar e quem ganhou a eleição naquele ano foi o então vice-governador Robinson Faria, hoje deputado federal.

“Nesse contexto, o MDB teve papel decisivo ao impedir a reeleição da então governadora Rosalba Ciarlini. O partido, naquela eleição, movimentou-se no sentido de fragilizar a base de apoio da governadora, culminando no sucesso da oposição, o que reforçou a imagem do MDB como um ator político que busca garantir ou conquistar poder através de ações que bloqueiam a continuidade dos adversários”, analisou Vanderlei Lima.

Uma particularidade do MDB, para o cientista político, diz respeito a algo que não pode ser desconsiderado enquanto característica da legenda: praticar o oportunismo fisiológico e clientelista. Isso, para Lima, tanto no campo nacional quanto na esfera estadual.

 

Para cientista político, MDB mantém influência por meio do Executivo

De 2014 para cá algumas alterações aconteceram no espaço ocupado pelo MDB potiguar na política, seja nacional ou potiguar. O cientista político Vanderlei Lima frisa que, embora Garibaldi Alves Filho (ex-governador e ex-senador) e Henrique Eduardo Alves (deputado federal por sete mandatos e que chegou a ocupar a presidência da Câmara Federal) tenham perdido força no plano nacional, a família manteve ocupação na Câmara Federal com Walter Alves, filho de Garibaldi.

Como o MDB não logrou êxito em 2014 e perdeu a campanha para Robinson Faria, a legenda viu na então senadora Fátima Bezerra (PT) a oportunidade de voltar ao cenário de poder no Rio Grande do Norte em 2022, indicando Walter Alves como companheiro de chapa de Fátima. A vitória veio no primeiro turno.

“O MDB mantém importante via de influência por meio do Poder Executivo no estado. Não podemos, no entanto, perder de vista a característica, sempre camaleônica, das lideranças emedebistas e da família Alves. A adesão da família a forças políticas que não sejam genuinamente do quadro familiar se mostrou sempre ambígua e sórdida, não tão diferentes de outros personagens das antigas ‘oligarquias” potiguares’”, disse o cientista político.

 

‘Estratégia de neutralizar adversário e controlar espaço político permaneceu constante’, diz professor

Apesar de doze anos separarem cenários políticos diferentes, o que se viu recentemente no Rio Grande do Norte foi um repeteco. A governadora Fátima Bezerra, no último ano de sua segunda gestão no Governo do Estado pensava que iria renunciar ao cargo até abril para tentar uma vaga ao Senado Federal. Para tanto, o seu vice-governador assumiria a titularidade do cargo e seguiria como nome natural à reeleição.

Ocorre que o MDB resolveu mudar o roteiro e o vice-governador Walter Alves afirmou que renunciaria também, obrigando assim que a Assembleia Legislativa realizasse eleição indireta para os cargos vagos, seja de governador e vice-governador.

“Como, no RN, o MDB é, praticamente, sinônimo da família Alves, o partido repetiu o mesmo padrão de atuação, desta vez, obrigando Fátima Bezerra a desistir da candidatura ao Senado. Embora em um contexto diferente, a estratégia de neutralizar adversários e controlar espaços políticos permaneceu constante, evidenciando uma continuidade na forma de atuação do partido”, analisou o cientista político Vanderlei Lima.

Esses fatos revelam alianças frágeis que o MDB estabelece com diversas forças políticas locais. Acordos de conveniência, ambíguos e marcados por descumprimento têm sido uma prática política emedebista consistente: agir decisivamente para impedir a reeleição ou a continuação eleitoral de líderes que possam representar obstáculos para seus interesses ou aliados. “É uma estratégia que procura impactar diretamente no cenário político, influenciando as dinâmicas eleitorais e a formação de alianças”, disse Lima.

Rompimento se resume em tentativa de mostrar poder de veto

O rompimento do vice-governador Walter Alves com a governadora Fátima Bezerra surgiu em um cenário desproporcional, politicamente falando, do contexto que marcou a aliança entre os dois. Walter saiu atirando, e ainda o faz, contra um governo que ele próprio chegou a ser titular, substituindo temporariamente Fátima. E alega que existem problemas de ordem numérica que lhes foram escondidos.

A forma como se conduziu esse rompimento evidencia o que o professor Vanderlei Lima afirmou: a legenda presidida no Rio Grande do Norte por Walter Alves quis mostrar ao eleitorado que tinha o poder de veto.

Além disso, e diante de tudo o que se colocou, Walter Alves sabia que uma provável candidatura dele ao Governo do Estado poderia resultar em perdas políticas. Tanto que ele tratou de conversar com o União Brasil para indicar o candidato a vice na chapa a ser homologada com Allyson Bezerra.

Coube ao deputado estadual Hermano Morais tal função. Para tanto, teria que passar suas áreas de controle político para Walter Alves, para que ele possa costurar entendimentos que o levem à Assembleia Legislativa.

O MDB até pode estar certo nos caminhos tomados, mas as supostas falhas residem justamente no aspecto que envolve fidelidade, parceria política e projeto coletivo. Ficou nítido que tudo o que foi feito, tanto em 2014 quanto em 2026 seguiu o campo da individualidade.

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