Quarta-Feira, 26 de fevereiro de 2025

Postado às 15h45 | 11 Abr 2021 | Redação Pesquisa vai compor e-book sobre mães cientistas na América Latina

Crédito da foto: Reprodução Mães, universitárias e trabalhadoras: um estudo de caso sobre as estudantes do curso de Pedagogia

Edinaldo Moreno/Repórter do JORNAL DE FATO

Intitulada “Mães, universitárias e trabalhadoras: um estudo de caso sobre as estudantes do curso de Pedagogia (FE-UERN)”, a pesquisa de monografia da egressa da Faculdade de Educação (FE) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Tássia Camila Martins Cunha, é uma das produções convidadas a compor o e-book “Mães Cientistas na América Latina: Perspectivas e Desafios na Academia”. O título é organizado pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP).

O DE FATO conversou com Tássia Camila e a orientadora Profª Me. Iasmin Marinho sobre o trabalho desenvolvido e de como surgiu a ideia de abordar um tema pouco discutido na academia. De acordo com Tássia, o início de tudo foi quando ficou grávida. Ela conta que passou por várias dificuldades durante a gestação.

“A ideia surgiu de minhas vivências na universidade. Logo no primeiro período eu me tornei mãe. Fiquei grávida e para mim foi uma surpresa porque não foi uma gravidez planejada e logo me veio o medo e várias lacunas foram surgindo com o tempo. Ainda grávida eu já enfrentava algumas dificuldades dentro da universidade. Eu precisava sair, perdia muitos conteúdos, eram muitos exames, muitas consultas. Alguns exames só poderiam ser feitos durante a parte da manhã, que era o período em que eu estudava”.

A egressa do curso de Pedagogia disse ainda que a dificuldade aumentou quando sua filha nasceu. Segundo ela, passou a sofrer preconceito e até assédio por ser mãe na universidade. O estudo analisou as narrativas e trajetórias das estudantes mães e trabalhadoras do curso de Pedagogia, bem como suas demandas por políticas institucionais de permanência no Ensino Superior.

“Quando Maria Liz nasceu, que é minha filha, a dificuldade aumentou e aí foram surgindo várias coisas ao longo do tempo. Eu comecei a sofrer preconceito, sofria assédio por ser mãe na universidade e isso foi me despertando um desejo de falar sobre isso. Eu via que não tinha muita gente falando sobre o espaço de ser mãe na universidade, apesar de eu cursar Pedagogia, que é um curso composto em sua maioria por mulheres e mulheres mães”, abordou Tássia que ainda explicou que a pesquisa traz dados que comprovam sua tese.

“A gente não discutia isso na faculdade de Pedagogia. Ao longo do tempo eu percebi que na faculdade de Pedagogia não tinha lugar para criança filha da universitária. Isso foi o que despertou o meu desejo de falar sobre isso, discutir sobre isso, de pesquisar sobre isso e lutar pelo direito da mulher na condição de mãe dentro da universidade”.

Outro desafio de Tássia Camila foi para encontrar pessoas que ficassem com sua filha enquanto ela estava na universidade, até mesmo um lugar adequado para que ela pudesse deixar sua filha quando levava o bebê para a sala de aula. Ela recorda que não havia nem espaço para amamentá-la.

“Os desafios surgiram desde quando eu não tinha com quem deixar minha para ir à universidade até quando eu tinha que levar minha filha para a universidade e lá não tinha espaço para ela. Não tinha simplesmente um espaço para que eu pudesse trocar minha filha. Eu me recordo que quando as vezes que eu levei ela, ainda muito pequeninha eu tinha de trocar em cima de uma mesa porque não tinha espaço para que eu pudesse trocar minha filha. Não tinha espaço para eu puder amamentar e tranquilizar minha filha.

A mãe de Maria Liz conta ainda que a pesquisa aborda também essa questão de não haver espaços para a amamentação das crianças. “Na minha pesquisa também eu falo sobre ter um lugar de acolhimento para essa mulher mãe. A gente sabe que o bebê ele necessita de um espaço para dormir e percebi que não existia esse espaço”.

Tássia Camila lembra também que a estrutura não foi o único empecilho. Ela ressalta a resistência de alguns professores do curso. Para ela foi um desafio muito grande por conta que os docentes ignoravam ou simplesmente desconheciam as leis que amparam a mulher nessas circunstâncias.

“Os professores eram muito resistentes. Tinham professores que simplesmente desconheciam as leis. As poucas leis que amparam as mulheres, institucionais e públicas, desconheciam ou simplesmente não queriam cumprir. Então é muito difícil ser mãe na universidade”, lamentou.

CONVITE

A Profª Me. Iasmin Marinho orientou a monografia de Tássia Camila. A docente disse que o convite partiu de uma das professoras da organização desse e-book da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP).

“Ele tem como objetivo apresentar uma produção de estudos e pesquisas que versam sobre as políticas de acesso e sobre as narrativas das estudantes mães desde a formação até a inserção no mercado de trabalho destacando os percalços e êxitos desse processo. O nosso trabalho fará parte desse grande projeto”, contou.

Iasmin Marinho informou que o convite foi realizado no mês passado durante participação na gravação de um episódio de um grupo de pesquisa do Instituto Federal de Ciência e Tecnologia do Estado do Ceará. “A professora doutora Kátia Rangel ouviu as falas sobre o estudo das mães universitárias e trabalhadoras, e despertou o interesse no assunto”.

Com base na temática da monografia da egressa, foi produzido um artigo de autoria coletiva da estudante Tássia Camila, com as professoras da FE/UERN Iasmin Marinho e Emanuela Monteiro, com o tema: Trabalho, gênero e condição materna na universidade: inclusão ou opressão? O texto fará parte das publicações que compõem o e-book.

Iasmin Marinho (FE/UERN) avalia que é de suma importância discutir o papel da mãe pesquisadora dentro das Universidades. “Uma pequena adequação nos banheiros com trocadores, fraldários, já são importantes iniciativas que dão visibilidade a essa demanda. Isso está para além de um detalhe, é uma questão de garantia de direitos às estudantes e professoras mães e às suas crianças. O maternar na Universidade é uma realidade, e ao mesmo tempo uma oferta invisível. Dar visibilidade a esse tema na produção científica é também informar à comunidade acadêmica das necessidades de seu público”, comenta.

DADOS

Pesquisa elaborada pela professora Iasmin Marinho e a estudante Tássia Camila entrevistou 45 mulheres do curso de Pedagogia da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

Segundo o estudo, das 45 respondentes, 13 são do 8º período e oito do 6º semestre. Observa-se também que o segundo maior número de alunas mães está no primeiro período de Pedagogia. No panorama dos semestres observados, vemos que a maior parte das mães está concentrada no início e final do curso.

Do total de 45 alunas mães, 33 possuem um filho (73,30%); 3 possuem três filhos (6,70%); 8 possuem dois filhos (17,80%) e 1 das respondentes destacou ter quatro filhos. A quantidade de filhos permite observar as dificuldades que atravessam a dinâmica de divisão dos afazeres das estudantes mães. Quanto mais filhos, maior o tempo, muitas vezes, que se dedicam às atividades domésticas e de cuidado das crianças.

O questionário também quis saber se as alunas que responderam ao documento sofreram algum tipo de discriminação em âmbito acadêmico no Curso de Pedagogia da FE-UERN por serem mães. Um total de 75,6% negou qualquer situação de vexame ou preconceito durante o período em que estão no curso, sendo que 2,2% afirmaram acreditarem não ter sofrido por estarem no início da graduação, e, 22,2% afirmaram já terem sofrido, até mais de uma vez, esse tipo de violência, que vai para além da falta de apoio e entra em dimensões discriminatórias.

A Faculdade de Educação da UERN possui 1.011 alunos matriculados, entre homens e mulheres.

 

Monografia traz relatos de estudantes mães na universidade

A monografia de Tássia Camila trouxe também respostas na íntegra das mães, universitárias e trabalhadoras que participaram da etapa da pesquisa. Em diversas respostas foram expostos relatos de opressão por estarem na condição de mães, tanto no âmbito das Universidades quanto em suas vidas cotidianas.

O estudo enfatiza que para diversas estudantes situações de discriminação e preconceito na faculdade são reais. Para efeitos de análise, estudante e orientadora apresentaram alguns trechos relatados por elas em relação a atitudes de alguns docentes durante aulas:

“Uma professora, no 1º semestre disse que teríamos que escolher entre ser estudante, mãe, professora ou qualquer outra coisa. Para fazer tudo ao mesmo tempo não dá” (Mãe 6);

“A professora deixou de forma clara que seria melhor a não presença da criança na sala de aula. Sendo que a mesma só possuía 6 meses, nunca nem chorou nas aulas desta professora” (Mãe 2);

“Já fui aconselhada [por professor] a procurar uma EAD por ser mãe” (Mãe 9).

“Um professor pediu que me retirasse da sala, pois, minha filha estava incomodando” (Mãe 5);

“Tive que levar minha filha um dia para a aula e a professora não gostou de dividir a atenção com ela” (Mãe 3).

“Estávamos em uma conversa sobre anticoncepcionais e uma colega [de turma] chamou-me de burra por ter engravidado” (Mãe 1);

“Os colegas não queriam me colocar em grupos de trabalho por medo de eu não ter tempo por causa do bebê e um professor disse que filho era invenção” (Mãe 4).

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