Por Amina Costa - Repórter do JORNAL DE FATO
Discutir sobre a violência doméstica é de suma importância para o entendimento sobre esse assunto, que embora polêmico, é rotina de milhares de mulheres brasileiras. Além da violência cometida contra mulheres dentro da própria casa, outro assunto que também merece destaque é o combate à violência doméstica contra a mulher com deficiência.
Por este motivo, ocorre no dia 26 de fevereiro, a apresentação do projeto Sarau Educativo. A intenção é abordar, culturalmente, sobre o combate à violência doméstica contra mulheres com deficiência. Este projeto é um dos premiados pela Fundação José Augusto (FJA) no edital destinado à Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural. Está categorizado no segmento das Pessoas com Deficiência e se destina a um assunto voltado ao enfrentamento à violência doméstica contra a mulher com deficiência.
Camila Morais é assistente social e autora deste projeto. Ela revela que o sarau é mais uma estratégia para lutar contra a violência doméstica. “Com este projeto temos o intuito de trazer a temática a ser abordada de forma de arte e cultura. Através de um sarau iremos trabalhar a conscientização da população sobre as mais variáveis formas existentes da violência doméstica, especificamente nas mulheres com deficiência, que sabemos que é um grupo com grandes índices dessa crueldade”, informou.
De acordo com a Lei Maria da Penha, o agressor que comete uma violência doméstica com uma mulher com deficiência, tem a pena aumentada em 1/3. Este sarau também irá abordar esse assunto, de forma cultural e menos pesada. “Trabalhar dessa forma, com a arte, levará conhecimentos a um maior número de pessoas, não somente às mulheres, mas a toda população, a fim de contribuir socialmente para esse mal que infelizmente ainda é presente em grande parte da população”, informa Camila Morais.
Ela informa ainda que o objetivo principal é promover a discussão desse tema de forma artística, mostrando a realidade de muitas mulheres com deficiência, nesse espaço de militância. Explica que um sarau se caracteriza como um espaço de encontro de pessoas que se reúnem para se manifestarem por meio de expressões artísticas. “Trazer como proposta é justamente falar de uma situação de forma artística, podendo chegar a um público muito maior, além de ser um espaço novo de militância”, explica a autora do projeto.
A apresentação do Sarau Educativo ocorrerá por meio de uma transmissão virtual, na página do You Tube “A Rodada”, que é uma página criada justamente para discutir sobre esse tema. “Propomos fazer da arte e cultura aliadas ao combate ao enfrentamento da violência doméstica, expondo uma realidade para contribuir com sua mudança nos papéis sociais, a fim de promover uma inclusão social”.
“Essa inclusão, principalmente nesse momento que o remoto está predominando, será feita de forma digital e artística, com a finalidade de promover formas de sua ascensão social e seu empoderamento. Como queremos dar e ser a voz dessas mulheres, buscamos mulheres com deficiência que estejam envolvidas com trabalhos de arte e cultura para participarem de nosso sarau”, acrescenta Camila Morais.
A criadora do projeto revela que existe uma lacuna imensa nas pautas de discussões sobre violência doméstica, principalmente no que diz respeito às mulheres com deficiência. “Busquei trabalhar essa proposta por justamente encontrar uma grande lacuna nas pautas de discussões feministas em relação às mulheres com deficiência. Sempre ouvia falar em debates de mulheres com vários tipos de peculiaridades, mas de mulheres com deficiência não se falava. Isso me fez refletir bastante, pois sei o quanto, enquanto uma sociedade machista, a mulher tem rebatimentos sociais por ser mulher e quando se é mulher com deficiência, digamos que há uma duplicada nesse rebatimento social”, relatou.
Perfil em rede social traz discussões sobre a vida de pessoas com deficiência
Descontente com a falta de debate de assuntos ligados às pessoas com deficiência, Camila Morais criou o perfil no instagram “@arodadaa”, que traz várias discussões sobre a vida em geral de uma pessoa com deficiência, a realidade vivida, por tantas e tantas pessoas, em especial de mulheres.
O título do perfil, A Rodada, é provocativo e é explicado pela autora do projeto por dois motivos. O primeiro é porque a autora utiliza a cadeira de rodas para se locomover, de forma que o termo “rodada” se refere às rodas. “E em segundo, em relação à visão da sociedade no quesito da mulher, que quando se fala ‘ela é rodada’ geralmente é uma ofensa, transfigurando um pouco de a mulher ser objeto e, em contrapartida, o homem quando é “rodado” é uma vantagem”, informa a criadora.
Camila Morais tem osteogênese imperfeita, mais conhecida como a doença dos ossos de vidro. Como assistente social e mestranda em educação, ela busca, por meio da perspectiva educacional, trazer constância e frequência de discussão sobre esse tema. Ela também ressalta a importância constante de se reafirmar enquanto papel na sociedade. Por isso, traz para compor o sarau uma equipe de mulheres que tenham alguma deficiência ou estejam totalmente ligadas a essa luta.
Entre as convidadas estão Martha Cristina, pedagoga, mestranda e escritora, que tem a vida marcada por uma trajetória de produções literárias envolvendo a temática de inclusão na escola, uma vez que tem poliomielite. Outra convidada é Yáscara Samara, filósofa, estudante de psicanálise e artista plástica. Ela, que tem fibromialgia, produz desenhos e pinturas que envolvem o cotidiano da mulher e ultimamente vem produzindo obras artísticas que denunciam a violência doméstica contra a mulher com deficiência.
Também participará do sarau a assistente social, Juliana Silva, que é mestranda em serviço social pela UFRN e pesquisadora na área de mulheres com deficiência. Mesmo sem ter deficiência, Juliana se mostra indignada com a falta de discussões sobre o tema. A dançarina Vitória Araújo também está presente na live. Com Síndrome de Down, ela relata que, pela dança, conheceu várias histórias. As outras mulheres que participarão do sarau são Jéssica Ruana, assistente social e especialista em saúde pública, que tem deficiência visual, e Letícia Sanchez, estudante de libras e dançarina, que tem deficiência auditiva, a surdez.
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