Visão distorcida e embaçada é um dos sinais
Por Gabriel Santos / Especial
Enxergar com nitidez é algo tão presente na rotina que, muitas vezes, pequenos sinais de alteração passam despercebidos. Dificuldade para focar, mudança frequente no grau dos óculos e imagens distorcidas costumam ser atribuídas ao cansaço ou a problemas visuais comuns, atrasando a busca por avaliação especializada.
Esse cuidado é ainda mais importante entre adolescentes e jovens, faixa etária em que determinadas doenças oculares podem surgir e evoluir silenciosamente, como o ceratocone.
Durante o Junho Violeta, campanha dedicada à conscientização e prevenção do ceratocone, o alerta se volta para essa condição que afeta a córnea e pode comprometer significativamente a qualidade da visão.
Considerada a principal causa de transplante de córnea no Brasil, ela acomete cerca de 150 mil brasileiros por ano, segundo o Ministério da Saúde, com diagnóstico mais frequente entre os 10 e 25 anos de idade.
A córnea é a estrutura transparente localizada na parte frontal do olho e tem papel essencial na formação das imagens. Quando a doença se desenvolve, esse tecido sofre alterações em sua estrutura e formato, interferindo diretamente na capacidade visual.
“Trata-se de uma condição progressiva em que a córnea sofre afinamento e mudança estrutural, assumindo formato de cone. Essa alteração impacta diretamente a qualidade da visão e pode evoluir de forma silenciosa, principalmente entre adolescentes e adultos jovens”, explica o Dr. Caio Melo, médico oftalmologista do Hospital de Olhos de Pernambuco (HOPE).
Os primeiros sinais nem sempre são percebidos imediatamente e, em muitos casos, podem ser confundidos com alterações comuns do grau dos óculos. “Mudanças frequentes na refração, visão embaçada e distorção das imagens merecem atenção, especialmente porque alguns pacientes mantêm boa acuidade visual nas fases iniciais, o que pode retardar a busca por atendimento especializado e favorecer a progressão do quadro”, afirma.
Outro fator que exige atenção envolve o ato de coçar os olhos. “Esse hábito, principalmente em pacientes que já possuem alergia ocular, está associado ao desenvolvimento e à progressão da doença, devido às alterações biomecânicas que podem ocorrer na córnea e favorecer a mudança do seu formato”, ressalta.
A confirmação diagnóstica ocorre durante a avaliação oftalmológica, com exames específicos que permitem mapear a córnea e identificar alterações estruturais ainda discretas. Entre eles, estão a topografia corneana e a tomografia, ferramentas importantes para definição do quadro e direcionamento da conduta médica.
“A detecção precoce é fundamental para o seguimento do paciente e para a possibilidade de utilização de estratégias como o crosslinking corneano, que visa promover a estabilidade da doença e impedir sua progressão. As opções terapêuticas variam conforme o estágio e podem envolver desde óculos e lentes de contato até procedimentos cirúrgicos, sempre com indicação individualizada”, pontua.
O que é ceratocone
Doença ocular degenerativa que afeta a córnea (a "lente" transparente e redonda na frente do olho). Em vez de manter seu formato esférico, a córnea fica mais fina e se projeta para a frente, adquirindo o formato de um cone.
Sintomas mais comuns
- Visão distorcida e embaçada: Dificuldade para enxergar de perto e de longe.
- Aumento rápido do grau: Mudanças frequentes nos óculos, geralmente por miopia e astigmatismo.
- Sensibilidade à luz (fotofobia) e halos ao redor das luzes à noite.
- Coceira ocular: O hábito frequente de coçar os olhos é um dos maiores fatores de risco, pois agride e fragiliza a estrutura da córnea.
Causas e Fatores de Risco
A causa exata não é totalmente conhecida, mas envolve uma combinação de predisposição genética (histórico familiar) e fatores externos, sendo o principal deles o hábito de coçar ou esfregar os olhos frequentemente. Geralmente, a doença se manifesta na adolescência ou na fase adulta jovem.
Opções de Tratamento
- Óculos ou Lentes de Contato: Usados nos estágios iniciais para corrigir o astigmatismo e melhorar o foco.
- Crosslinking: Procedimento que usa luz ultravioleta e vitamina B2 para enrijecer a córnea, travando a evolução da doença.
- Anel Intraestromal: Implante de pequenos anéis de acrílico na córnea para regularizar sua curvatura e melhorar a visão.
- Transplante de Córnea: Indicado apenas em casos mais graves, quando a córnea está muito fina, opaca ou as outras opções já não funcionam.
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