Sábado, 01 de agosto de 2026

Postado às 09h45 | 01 ago 2026 | redação Diversidade biológica ainda pouco explorada no Rio Grande do Norte

Crédito da foto: Cícero Oliveira / Agecom UFRN Grupo de peixes é conhecido por responder rapidamente às alterações ambientais

Por Rita Paixão / Especial – UFRN

Ainda pouco conhecidas pela ciência, Hypsolebias guararug e Hypsolebias negobispoi demonstram que as lagoas sazonais da Caatinga abrigam uma diversidade biológica ainda pouco explorada. A descoberta dessas duas novas espécies de peixes anuais na bacia do rio Piranhas-Açu, no Rio Grande do Norte, amplia o conhecimento sobre a biodiversidade desse bioma exclusivo do Brasil e abre novas perspectivas para pesquisas sobre os impactos ambientais em ecossistemas temporários.

A pesquisa, publicada na revista científica Neotropical Ichthyology, teve início em junho de 2024 e integra o doutorado do zoólogo Yuri Abrantes, do Programa de Pós-Graduação em Sistemática e Evolução (PPGSE/UFRN). O estudo foi desenvolvido no Laboratório de Ictiologia Sistemática e Evolutiva da UFRN, sob a orientação dos professores Sérgio Lima (UFRN) e Waldir Miron Berbel-Filho, da University of West Florida (Estados Unidos), com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Para o professor Sérgio Lima, a descrição das espécies é essencial para que elas passem a integrar estratégias de conservação. “A partir desse trabalho de taxonomia, essas espécies passam a existir para a ciência. Isso permite avaliar seu estado de conservação e considerar sua ocorrência nos processos de licenciamento ambiental”, explica.

Segundo Abrantes, a descoberta é resultado de uma linha de investigação iniciada ainda durante a graduação. “Essa pesquisa começou antes mesmo do doutorado, ainda na graduação. Já coletamos peixes em diferentes estados do Nordeste, principalmente na região costeira que abrange os estados do Ceará e do Rio Grande do Norte. Nessa região, nossos estudos já resultaram na descoberta de seis novas espécies de peixes das nuvens, sendo duas no Ceará e quatro no Rio Grande do Norte.”

As expedições de campo duravam apenas alguns dias, mas eram seguidas por meses de análises em laboratório, envolvendo morfologia, genética, química da água e avaliação do estado de conservação. O trabalho concentrou esforços na bacia do rio Piranhas-Açu após estudos anteriores indicarem a possível ocorrência desse grupo de peixes na região, mas sem registros geográficos precisos.

Muito antes de a ciência explicar seu ciclo de vida, moradores da região acreditavam que esses peixes “caíam das nuvens”, já que apareciam apenas após as primeiras chuvas. Na realidade, os ovos permanecem enterrados no solo durante o período de seca e eclodem quando as lagoas temporárias voltam a se formar.

Essa característica faz com que cada população permaneça isolada em pequenas lagoas temporárias, dificultando a dispersão para novos ambientes e tornando essas espécies extremamente vulneráveis às alterações provocadas pela ação humana.

Pesquisador Yuri Abrantes

Espécies recém-descobertas estão ameaçadas

Embora tenham acabado de ser descritas pela ciência, as duas espécies já apresentam elevado risco de extinção. As análises realizadas pelos pesquisadores indicam que Hypsolebias guararug deve ser classificada como Em Perigo (EN), enquanto Hypsolebias negobispoi se enquadra na categoria Criticamente em Perigo (CR).

Abrantes explica que a situação é preocupante porque esses peixes vivem em áreas muito pequenas e temporárias. “São lagoas temporárias, isoladas, que podem facilmente deixar de existir. Um trator pode passar por cima, uma estrada pode ser construída sobre elas. Além do impacto antrópico, a falta de conhecimento também contribui para que essas espécies se tornem ameaçadas”, afirmou.

Segundo o pesquisador, a inclusão dessas espécies nas listas oficiais de ameaça representa um importante instrumento para a conservação, pois estimula a criação de políticas públicas voltadas à proteção de seus habitats.

 

Efeitos das alterações ambientais nos organismos

Durante as análises laboratoriais, os pesquisadores identificaram um fenômeno inédito para o gênero Hypsolebias. Normalmente, machos e fêmeas apresentam colorações bastante distintas, o que permite diferenciá-los facilmente. Entretanto, parte dos indivíduos exibia características de coloração típicas de ambos os sexos.

O fenômeno foi observado em aproximadamente 42% dos indivíduos de Hypsolebias guararug e em cerca de 40% dos exemplares de Hypsolebias negobispoi. A elevada frequência desse padrão chamou a atenção da equipe e motivou investigações sobre a influência das condições ambientais. Segundo Yuri Abrantes, trata-se de um polimorfismo de cor, ou seja, uma variação na coloração caracterizada pela presença simultânea de padrões típicos de machos e de fêmeas.

Além desse padrão intermediário de coloração, também foram registrados indivíduos cegos e exemplares com deformações na coluna vertebral. Embora ainda não seja possível estabelecer uma relação direta entre essas alterações e uma possível contaminação ambiental, essa hipótese está sendo investigada em novas pesquisas. “Essa característica pode ser uma forma de as populações desses peixes responderem às mudanças ambientais. É justamente isso que estamos investigando”, afirmou Yuri.

Para investigar se fatores ambientais poderiam estar associados aos fenótipos observados, os pesquisadores analisaram a qualidade da água das lagoas temporárias onde as populações foram encontradas. Os resultados confirmaram a presença de hidrocarbonetos derivados de petróleo em todas as áreas estudadas, com concentrações variando entre 281 e 447,88 microgramas por litro.

Em uma das localidades estudadas, um poço de petróleo em operação está localizado a menos de dez metros da lagoa onde vivem os peixes. Segundo Abrantes, a proximidade entre os empreendimentos e os habitats motivou a investigação. “Os peixes já estavam ali há muito tempo, bem antes de esses empreendimentos chegarem”, afirma.

Segundo o professor Sérgio Lima, embora a presença de hidrocarbonetos na água tenha sido confirmada, ainda não é possível mensurar seu impacto sobre as espécies. “A única coisa que podemos afirmar é que a água está contaminada por hidrocarbonetos. Ainda não sabemos como nem em que medida isso está afetando essas espécies”, explica.

Embora a legislação brasileira ainda não estabeleça limites específicos para hidrocarbonetos de petróleo em água doce, esses compostos são reconhecidamente tóxicos para organismos aquáticos e podem comprometer diferentes funções fisiológicas, especialmente a reprodução.

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