A confirmação de que jubartes ignoram fronteiras oceânicas tradicionais reforça a necessidade de coo
Pablo Araújo / Especial - Agecom/UFRN
Pela primeira vez na história da biologia marinha, cientistas documentaram o movimento de ida e volta de baleias-jubarte entre as áreas de reprodução do Brasil e da Austrália Oriental. O estudo publicado na revista Royal Society Open Science, identificou dois indivíduos que cruzaram as bacias dos oceanos Atlântico e Pacífico, percorrendo distâncias mínimas de 14.200 km e 15.100 km. O registro de 15.100 km constitui a maior distância de deslocamento já relatada para a espécie em todo o mundo, superando o recorde anterior em cerca de 15%.
A descoberta foi fundamentada na análise de 19.283 imagens de foto-identificação de caudas de baleias, coletadas entre 1984 e 2025 e processadas pela plataforma global Happywhale. O indivíduo recordista foi fotografado originalmente no Banco dos Abrolhos, na Bahia, em agosto de 2003, e reidentificado na Baía de Hervey, Austrália, em setembro de 2025. O intervalo de 22 anos e um mês entre os registros é um dos mais longos documentados para um mesmo animal em diferentes áreas de reprodução. O outro caso documentou o trajeto inverso: um animal identificado na Austrália em 2007 e 2013 foi fotografado no litoral de São Paulo em 2019.
Caudal da baleia-jubarte fotografada no Banco dos Abrolhos, na Bahia, em 2003. Foto: Renata Sousa-Lima
Identificação por cicatrizes e padrões biológicos
A técnica de foto-identificação funciona como a leitura de uma biografia gravada na pele dos gigantes marinhos. No caso específico da baleia recordista, identificada como RSL-360, os pesquisadores documentaram que o indivíduo apresentava múltiplas cicatrizes distribuídas pelo corpo e na nadadeira dorsal. Essas marcas, ao lado do formato único das bordas das nadadeiras e dos padrões de pigmentação ventral, compõem uma espécie de “impressão digital” que permite o rastreamento individual ao longo de décadas.
É fundamentado nessas cicatrizes e manchas que os algoritmos de reconhecimento de imagem da plataforma Happywhale conseguem processar milhares de fotos e confirmar, com precisão, que um animal visto em Abrolhos em 2003 é o mesmo que ressurge na Austrália 22 anos depois.
Os dados corroboram a hipótese do Southern Ocean Exchange, proposta pela cientista Renata S. Sousa-Lima, professora do Departamento de Fisiologia e Comportamento da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (DFS/UFRN), juntamente com outros pesquisadores, que sugere que as fronteiras entre as populações do Hemisfério Sul são permeáveis em áreas de alimentação compartilhadas na Antártida. A ausência de barreiras continentais ao redor do continente gelado permite que baleias de diferentes estoques reprodutivos se encontrem, possivelmente motivadas por mudanças na possibilidade de presas, como o krill, resultantes da variabilidade climática e do aquecimento global.
Professora Renata Sousa-Lima registra e monitora padrões de deslocamento das baleias. Foto: ARC/UFRN
Embora esses eventos representem apenas 0,01% dos indivíduos identificados, eles possuem implicações profundas para a conservação e para a compreensão da cultura desses mamíferos. A professora Renata Sousa-Lima, coautora sênior do estudo, destaca a relevância biológica desse encontro: “Existe o potencial do intercâmbio genético, pois todos os indivíduos eram adultos. Além da genética, as fontes indicam que essas viagens facilitam a transmissão cultural de cantos”. Estudos anteriores coordenados por Sousa-Lima já registravam machos com padrões de canto misto e revoluções culturais, mudanças abruptas no repertório sonoro, resultantes do contato entre as populações do Pacífico e do Atlântico em águas antárticas.
A ciência da UFRN monitorando os gigantes do Sul
A confirmação de que as jubartes ignoram fronteiras oceânicas tradicionais reforça a necessidade de cooperação internacional e apoia a proposta de criação do Santuário do Atlântico Sul, em discussão na Comissão Internacional da Baleia. Este protagonismo científico parte do Laboratório de Bioacústica (LaB) da UFRN, unidade do DFS que coordena as pesquisas de ponta sobre a vida marinha no Brasil.
Cientistas da UFRN usam identificação fotográfica e bioacústica para rastrear a saúde de baleias e a frequência com que esses gigantes "dobram o mundo". Foto: ARC/UFRN
Atualmente, a UFRN lidera o monitoramento dessas conexões raras por meio do projeto Sentinelas da Amazônia Azul, realizado pelo LaB, em parceria com a Marinha do Brasil e com financiamento pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O trabalho da Universidade utiliza a identificação fotográfica e a bioacústica para rastrear a saúde da população e a frequência com que esses gigantes dobram o mundo, reafirmando o papel da instituição potiguar como referência global na conservação do oceano.
O protagonismo da UFRN é resultado de uma busca contínua pela excelência acadêmica, pelo fortalecimento e pela ampliação da internacionalização, por meio de parcerias estrangeiras e do desenvolvimento de pesquisas de interesse global, conforme previsto no Plano de Gestão 2023-2027, revelado no indicador 9 (índice de pesquisadores de excelência na instituição)
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