Disputado por 48 seleções em Canadá, Estados Unidos e México, o Mundial de 2026 expande fronteiras
Por Marcos Santos / Jornal de Fato
Uma Copa do Mundo organizada por mais de um país já havia acontecido em 2002, na Coreia do Sul e no Japão, enquanto o formato com 32 seleções vinha sendo disputado desde 1998, na França.
No entanto, a edição de 2026 do megaevento chegou para mudar toda a sua estrutura.
Pela primeira vez na história da quase centenária competição, o Mundial será realizado em três países diferentes, cada um com dimensões continentais, e contará com 48 seleções na disputa pela cobiçada taça. O torneio, que começará nesta quinta-feira, 11, na Cidade do México, com a partida entre os anfitriões e a África do Sul, será um evento gigantesco que transcenderá o esporte e dialogará diretamente com a geopolítica.
Ao todo, os torcedores poderão acompanhar, presencialmente ou à distância, jogos disputados em 16 estádios, envolvendo 12 grupos e, pela primeira vez, uma fase de 32 avos de final, que ocorrerá após todas as seleções concluírem seus três compromissos iniciais. Os 104 jogos serão distribuídos entre Canadá, México e Estados Unidos, com este último liderando a organização do torneio.
Em termos de comunicação, a preparação para a Copa do Mundo teve dois protagonistas: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o chefão da Fifa, Gianni Infantino, que transformaram o evento em uma constante vitrine pessoal, deixando em segundo plano as estrelas que entrarão em campo nas próximas semanas.
O eixo dessa peculiar parceria entre o americano e o ítalo-suíço se consolidou ao longo do último ano, em meio a uma relação de assistência mútua. Por um lado, houve a presença de Infantino no Conselho da Paz e em diversas cúpulas internacionais; por outro, o chamado "Prêmio da Paz da Fifa", concedido pelo dirigente ao magnata republicano.
Esses são apenas alguns dos motivos pelos quais a Copa do Mundo estará entrelaçada com a geopolítica como poucas vezes se viu na história do torneio. O evento ocorrerá em meio às incertezas envolvendo o Irã, especialmente em razão da guerra no Oriente Médio e dos incidentes diplomáticos envolvendo Washington. A solução prevista no âmbito esportivo é que a seleção iraniana fique concentrada no México, mas dispute suas partidas em território americano.
Dentro de campo, a Copa do Mundo será a terceira consecutiva sem a presença da tetracampeã Itália. Por outro lado, o torneio contará com seleções como Curaçao, Cabo Verde, Haiti e Uzbequistão. Trata-se de uma oportunidade para que diversas nações emergentes brilhem no maior palco do futebol e até surpreendam, já que o novo formato permite que até 32 equipes avancem da primeira fase.
O Mundial marcará a estreia de muitos jogadores, mas também representará a última participação das duas estrelas que dominaram o futebol nas décadas de 2000 e 2010: Cristiano Ronaldo, de Portugal, e o argentino Lionel Messi, campeão mundial em 2022, no Catar.
Os dois astros personificam a história da modalidade, assim como o local que receberá a abertura da competição: o Estádio Azteca, palco de duas Copas do Mundo e de partidas memoráveis nas edições de 1970 e 1986. Os EUA, por sua vez, optaram por olhar mais para o presente do que para a tradição: deixaram de lado o Rose Bowl, em Pasadena, palco do tetracampeonato brasileiro, em favor do moderno SoFi Stadium, em Inglewood.
Ainda em relação aos estádios, o Ministério Público de Nova York voltou sua atenção para o MetLife Stadium, especialmente por causa dos altos preços dos ingressos, enquanto o prefeito da cidade, Zohran Mamdani, anunciou pacotes menores a preços mais acessíveis, a partir de US$ 60.
A acessibilidade, tanto em termos de preços quanto de vistos, negados a cidadãos de diversas nacionalidades, como iranianos e haitianos, tornou-se um tema central. O técnico da Escócia, Steve Clarke, chegou a pedir aos torcedores que não se endividassem para acompanhar a seleção presencialmente. Além disso, os Estados Unidos registraram uma demanda por ingressos significativamente menor do que a esperada, aspecto que deverá ser observado com atenção antes dos Jogos Olímpicos de Los Angeles de 2028.
Outra preocupação está relacionada ao clima. As partidas serão disputadas em diferentes horários, mas o calor, um fator cada vez mais presente e preocupante em grandes eventos esportivos, vem tirando o sono das seleções. Soma-se a isso a longa duração do torneio, disputado ao fim de uma temporada intensa. O trabalho dos treinadores será fundamental para administrar o desgaste físico, os picos de desempenho e as lesões, já que vários atletas chegam abaixo de sua melhor condição.
O jovem Lamine Yamal, destaque da favorita Espanha, recupera-se de uma lesão na coxa que o afastou dos últimos compromissos do Barcelona na LaLiga. Com inúmeras variáveis em jogo, ainda é cedo para previsões definitivas sobre o desempenho das equipes. As casas de apostas, contudo, apontam a Espanha como favorita, seguida de perto pela França de Kylian Mbappé. A Inglaterra, que busca seu segundo título mundial 60 anos após a conquista de 1966, aparece logo atrás e supera os dois gigantes sul-americanos: a Argentina, atual campeã, e o Brasil, agora comandado por Carlo Ancelotti e em busca do hexacampeonato.
No fim das contas, as seleções carregam o peso das expectativas de seus respectivos países e estão prontas para fazer seus torcedores sofrerem, desesperarem-se e comemorarem juntos, seja em casa, seja nas ruas.
Apesar das barreiras que, especialmente desta vez, parecem se erguer entre o futebol e as pessoas, há algo que permanece inalterado: a Copa do Mundo acontece apenas uma vez a cada quatro anos e, quando chega, a vontade de celebrar acaba tomando conta de quase todos.
De olho no hexa
Com o italiano multicampeão Carlo Ancelotti estreando no comando de uma seleção, o Brasil chega à Copa do Mundo em busca da sexta estrela, depois das conquistas de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002.
Já são, portanto, 24 anos de jejum de uma seleção que atualmente ocupa o modesto 6º lugar no ranking da Fifa, atrás de Argentina, Espanha, França, Inglaterra e Portugal.
O Brasil começa no Grupo C e estreia contra Marrocos, neste sábado, às 19h (de Brasília). Depois, enfrenta o Haiti, no dia 19, às 21h30, e a Escócia, no dia 24, às 19h.
Avançando para as oitavas de final como primeiro ou segundo colocado do Grupo C, a seleção brasileira enfrenta uma equipe do Grupo F, que reúne Holanda, Japão, Suécia e Tunísia. Se passar dentre os melhores terceiros, o time encara líder do grupo A, E ou I.
Despedidas
A Copa do Mundo de 2026 deve marcar a despedida de astros históricos do futebol mundial: Cristiano Ronaldo, de Portugal, e Messi, da Argentina.
Convocado para a sua quarta Copa do Mundo, Neymar também se despede nesta edição, assim como Son Heung-min, da Coreia do Sul; Manuel Neuer, da Alemanha; Guillermo Ochoa, do México; e Luka Modri?, da Croácia.
Preços dos ingressos
A Copa do Mundo tem sido alvo de críticas pelos preços dos ingressos para as partidas, e a venda das entradas tem sido abaixo do esperado - milhares de lugares ainda estão vagos, mesmo com o início da competição.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a dizer que nem ele pagaria por ingressos com preços tão altos.
O custo médio das entradas para a final é de quase US$ 13 mil (cerca de R$ 65 mil).
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